terça-feira, 12 de setembro de 2017

Poema: TRANSCENDÊNCIA - Tema: SETEMBRO AMARELO - MÊS DE PREVENÇÃO AO SUICÍDIO.





TRANSCENDÊNCIA


Amélia Luz

Da morte absurda
Restou a sombra transitória
O desfazer dos dias sombrios
Contagem regressiva
Nas horas terríveis da solidão,
Mistério da erosão interior
Que tanto o atormentava...
Era como um pássaro indefeso
Esmagado nas suas próprias mãos.
Odiado, rejeitado ou amado,
Rompeu com regras impostas,
Escolheu o pomo mais amargo
Escondido em folhagens venenosas.
Vomitou a rotina, sua sina,
Círculo vicioso da depressão
Que o sucumbia em silêncio...
Era como a rês marcada
Esperando a hora para o sacrifício!
Gritou, pediu que lhe ouvissem,
O gemido do seu sofrimento
Mas os ouvidos surdos não foram capazes,
De percebê-lo assim, tão humano!
Descrente, mergulhado nos delírios insanos,
Que o perturbavam amargamente,
Vestiu inconsciente a sua mortalha
Entre os cacos espalhados da sua vida!
Andarilho, não esperou que um vento forte
Viesse atirá-lo ao chão, fruto maturo,
Entre os vermes famintos da terra-pó.
A noite interminável, a coragem, o estampido...
Nem o rascunho da sua triste história
Pode deixar como memória
Pois as palavras mordem como víboras,
Neste purgatório, que vivemos,

De punições e chibatas!



segunda-feira, 14 de agosto de 2017



CENTOPÉIA – MUNDO INFANTIL

Amélia Luz


Se eu pudesse
Parar no F da Fantasia
Virar criança, cair na dança
Embebedar-me de alegria...
Se eu pudesse
Sair por aí sapateando
Seria uma centopéia falante
Cheia de pés pequenininhos...
Só assim, poderia de certo,
Calçar todos os meus sapatinhos!
Um cromo alemão de fivela,
Um par de tamancos  holandês,
Um “scarpin” dourado
Um mocassin confortável
Um sapato de mandarin
Um Luiz XV alinhado
Um  tênis americano, modernizado
Uma elegante sandália italiana
Uma Anabela, uma rasteirinha,
Um sapato fechado, secarrão e calado,
Um bico-fino francês, outro inglês refinado.
Para variar usaria um bate-bute desajeitado
Bem “quadrado”, de esquadrão, de soldado.
Ou uma bota de verniz de cano longo
Uma outra esquisita de alpinista,
Um Chanel estiloso cor de mel
Uma sapatilha cor-de-rosa
Lembrando uma bailarina russa.
Por fim, uma havaiana bem colorida,
Para trilhar as passarelas da vida,
Copacabana, sol e mar, mocidade.
Ah! Como seria legal!
Virar uma centopéia vaidosa,
Sair por aí toda prosa,
Exibindo a minha coleção em cada estação!
Enfim, ao soar das badaladas da meia-noite
Calçar um dia os meus sapatinhos de cristal
Encontrar o meu príncipe encantado
Nas nuvens morar no Reino da Felicidade
Sapateando a canção da liberdade!





domingo, 13 de agosto de 2017

Patrimônio Universal

Amélia Luz










 Por isso desprezei a vida, pois o trabalho que se faz debaixo do sol pareceu-me pesado. Tudo era correr atrás do vento.

Eclesiastes, 2 - 17.



Tudo pelo poder do dinheiro,
o empreendimento, o logro, 
a conquista, a (in)justiça social
ou o pão nosso de cada dia.
A aposta, o prêmio, a loto,
ou o fiel bilhete de jogo de bicho!
Cheques, ordens de pagamento,
bancos, clientes de ouro ou de lata.
Enfrentam-se filas, sorrindo,
se o alvo for o certeiro dinheiro!
Pagar, emprestar, render, poupar,
Sonegar, enganar o leão
ou sair pela contramão,
investimento ou gastando
e até mesmo rasgando dinheiro.
Vive-se dele e por ele. Que agonia!!!
Ser consumista ou ser pão duro eis a questão!
Assinamos ponto, batemos cartão todo dia,
pelo pagamento, pelo dinheiro!
Simpático, cobiçado, centro de discussões e debates,
por ele torres-gêmeas esfarelam
países são bombardeados
impérios são discutidos em ioruba, javanês, chinês
falando-se sempre a mesma língua ianque,
“MONEY...MONEY...MONEY”!
A suposta felicidade vem com ele,
Enterrado no quintal, no baú de tesouros,
no pé de meia ou debaixo do colchão.
A transitoriedade do homem e a durabilidade do dinheiro
na história da humanidade atravessando os séculos...
Os novos valores, os massacres, as guerras,
O mundo em ordinal: países de primeiro, segundo,
terceiro, quarto, quinto mundo, etc. e tal.
Emergente, sobrevivente, 
no comando desse espetáculo global,


ELE, o dinheiro, patrimônio Universal.   



 P'RA DIZER QUE NÃO FALEI DA NARA 


P’RA  DIZER  QUE  NÃO  FALEI  DA  NARA

Amélia Luz – Pirapetinga
Minas Gerais

Falar da Nara, musa-protesto,
Cara a cara com o Brasil Revolução!
Falar da Nara, delicada, reservada,
Ou da Nara Tropicalista do divã do analista!
Falar da sua arte musical
Um verdadeiro festival consagrado...
Um grupo de amigos parceiros,
Um mesmo passo no mesmo laço,
Num só compasso, afinado no mesmo diapasão!
Um canto qualquer escolhido,
De um apê com endereço em Copa
Com vista para o mar azul.
Um drinque, um piano, um violão,
Assim, brotava a canção sem malícia,
Na pura emoção bossanovista...
Enquanto isso, tambores em marcha,
Violentavam em tempos de chumbo.
A ditadura cruel, o medo, a repressão!
“Caminhando e cantando”, seguia amordaçada,
Provando do cálice amargo do fel,
Proibição ideológica do regime militar!
Nara declara em seu recado desafinado
Poderoso discurso social disfarçado,
Composto por profunda inspiração,
Entre partituras, fuzis e escalas:
Seu “Canto Livre”, “Pedindo Passagem”,
Numa ensolarada “Manhã de Liberdade”,
Brada em poesia - DEMOCRACIA -
Ao sopro do “Vento de Maio”
Que vem assanhar os seus pensamentos.
A mão sensível de Nara o verso apara,
Num ritmo estranho, transverso,
Num jeito descontraído dos anos de ouro,
Que perpetua a sua imagem, rico tesouro!

E Vandré com a viola mágica que seduzia
Comandava emoções, entusiasmando a multidão:

“Com a certeza na frente, a história na mão,
 Aprendendo e ensinando uma nova lição,

 Somos todos iguais, somos todos irmãos!”

sexta-feira, 11 de agosto de 2017





O  VELHO ENGENHO


                            O velho engenho gemeu calado. Estremecido nas suas lembranças recordou do seu antigo e primeiro dono, o João Carlos, depois o segundo, o Pedrinho Carlos, depois o terceiro, o seu dono Vermelhão e agora a quarta, a menininha da balança. Pensou com os seus botões quantas mudanças! Ouvia ainda o soco da mão no pilão, o cantarolar das mulheres catadoras de café, o ruído da máquina de beneficiar o arroz em palha. Olhou ao lado viu o terreiro de pedra vazio sem o arrastar dos rodos para a secagem de arroz e café em grãos. E os carros de bois que chegavam cheios até o fueiro cantando a mesma melodia sonolenta. O grito do carreiro, a boiada aparelhada, os braços fortes para o descarrego das mercadorias. Bons tempos...
                            Depois se lembrou de quando ficou por tantos anos vazio e inútil assistindo aos voos rasos dos morcegos, o choramingo dos gatos no cio, as andorinhas que na beirada do telhado que se escondiam para fazer seus ninhos... Hoje elas estão lá, de ferro, lindas, mas não fazem alarido nem têm filhotes para alimentar e fazer bagunça.
                          Pensou no cheiro da comida da Anna, nas crises de asma do Amerco, (do cheiro ativo do seu cigarro feito de uma planta fedida chamada trombeta, para aplacar as suas crises), do pigarrear do Joaquim ouvindo a Rádio Aparecida ao cair da noite e das prosas longas do Seu Bertolino e do Sebastião Luz nas tardes de verão.
                           E o seu dono Vermelhão, cheio de infantilidades contando as suas lorotas ou brigando feio com o irmão que insistia em administrar tudo com responsabilidade? Onde estará? Como estará?
                          Recordou também dos casos de amor clandestino que ali presenciara. Coisas dos seus donos e que ele como bom confidente não revelou pra ninguém. Era fiel e não gostava de conversa boba. E a sua dona, a Dama de Preto? Silenciosa, observadora, sofredora das amarguras da vida... Encantou-se e partiu para sempre...
                          Pensou quando as crianças foram para o internato e ele ficou mais triste sem a movimentação delas, conversando, brigando, guardando e tirando as bicicletas. E as gaiolas dos meninos, dependuradas (os pregos ainda estavam lá em suas paredes), os canarinhos cantando, as brigas de galo que ele as assistia e se divertia...
                        Mas houve também tragédia! O dia que o rio se zangou e o aguaceiro subiu, seu dono se desesperou protegeu a família e apenas com o chapéu na mão subiu o morro deixando-o sozinho imerso no aguaceiro. Foi triste, muito triste... A criação berrando, as galinhas indo embora na correnteza e tudo se perdendo tão rápido.
                    Com muito trabalho seu dono cheio de esperança reconstruiu tudo e ele voltou a funcionar na lida do café, da torrefação e do arroz a pilar.
                    Muitos anos se passaram. Certo dia de desaviso depois de vários dias de muita chuva sua parede frontal não agüentou e veio ao chão. Seu dono Vermelhão ficou desesperado sem saber o que fazer. Sua companheira com cautela juntando boas idéias foi lhe acalmando e sugerindo que o consertassem dado o valor histórico que ela, só ela via nele. A Dama de Preto já havia morrido e só ela olhava para ele com olhar de carinho. Confesso que o velho Engenho chorou quando seu dono Vermelhão sentenciou que ia lhe derrubar. Quanta ingratidão! Ela protestou brava pela primeira vez. Ordenou ao marido que vendesse algumas cabeças de gado (porque gado nasce e cria todo dia) e um Engenho como aquele, nunca mais. Depois de derrubado como fazer outro igual? A sorte dele foi que o dono Vermelhão meio carcomido pela doença emocional, aceitou e com dificuldades chamou indicado por ela, um profissional entendido em madeiras para lhe reformar. Foi difícil, não havia recursos disponíveis. Assim o casarão permaneceu de pé. Ela administrou tudo dentro do que pode. O dono vermelhão caiu em depressão e nem da cama saía.
                    Pelo menos o Engenho suspirou aliviado. Estava fora do perigo da ameaça da demolição. Virou depósito de sacas e mais sacas de arroz de um comerciante avarento que não pagava um tostão pelo seu serviço.
                        Em sua frente havia uma frondosa mangueira (todos se beneficiavam da sua acolhedora sombra) que uma das filhas do seu primeiro dono havia plantado. Era manga baiana, fruto doce e saboroso. No seu galho mais forte o seu dono Vermelhão pendurou uma gangorra para a menina dele se balançar. Foi muito bom... Ela balançava e seus cabelinhos cacheados se assanhavam ao vento e era uma risarada de dar inveja. Mas a velha mangueira adoeceu e morreu apesar de todos os cuidados...
                        Acontece que as coisas mudam. Seu dono Vermelhão também morreu como o seu primeiro dono, o segundo, a Dama de Preto, a Anna, o Amerco, o Joaquim, o Bertolino e o Sebastião Luz.
                        A casa da família reformada e bonita ficou fechada. Ao lado o casarão ficou sozinho testemunhando tudo.
                        Então ele passou a ser da sua quarta dona, depois da morte do dono Vermelhão, inesperadamente. Agora a “manda chuva” é a menininha que há pouco balançava nos galhos da mangueira. Ela o via fechado e pensava em lhe dar um novo destino. Ele começou a ficar preocupado com as conversas que de todos ouvia. O que seria dele???
                         Um dia apareceu um bando de pedreiros armados de ferramentas. Encheram-no de material de construção e começaram a lhe modernizar. Ganhou portas e janelas novas e seguras. Ganhou um piso bonito, cozinha, iluminação, despensa, banheiros e até um varandão. Qual seria o seu novo destino???
                             Então veio a grande surpresa! Ficou bonito, com cara de “coroa” recauchutado. Eles pintaram as suas paredes e portas, abriram espaços e à noite apareceu um grupo de músicos que subiu no seu palco (que antes era o acento da máquina de beneficiar arroz) e começou a tocar muitas canções. Todos riam e cantavam. A nova dona parecia cansada, mas estava alegre e satisfeita, (era seu aniversário), realizada com o resultado do seu esforço. Com os convidados chegando foi uma noite de festa.
                          Calado ele via tudo isso. Começaram a inventar até nome novo para ele. Que absurdo!!! Isso ele não aceita não! Já tendo certidão de nascimento de quase cem anos e se chamando ENGENHO, com muita honra como mudar de nome? . Exigiu respeito! A companheira do seu dono Vermelhão, a única presente e viva, para contar a sua história também não aceita que mudem o seu nome “engenhoso” e bonito e tão antigo quanto ele.
                         Com uma coisa ele ficou feliz um pedacinho de dele, antigo e original ficou guardado em vidro dentro de uma moldura para mostrar o quanto era velho e também a marca da enchente que o inundou.
                          Vai se lembrar de sempre com saudades do seu dono Vermelhão e do seu irmão, o grandalhão do Zé Roberto, da Dama de Preto e de todos os netos, amigos e parentes que o amaram e que também com fidelidade serviu no seu ofício.
                         Agora é vida nova. Tem que se acostumar e pensar que os tempos mudam, as pessoas morrem, os velhos passam para outras mãos. Só espera que a nova patroinha, a menininha da balança o ame da mesma forma que a mãe dela, companheira do seu dono Vermelhão o ama e respeita sem interesses, somente pela beleza da sua história. Ele tinha que contar estas verdades, elas fazem parte de tempos que passaram, mas que estão presentes dentro dele, pulsando em seu coração, latejando em suas veias.
                       Confessa que chorou quando viu as andorinhas pintadas  enfeitando uma das suas paredes principais, trouxeram-lhe fortes lembranças da cantoria que as antigas e vivas faziam ao construir seus ninhos para berçário da “filhotada” que ele as abrigava com carinho até que depois voassem livres.
A modernidade foi vencedora não adianta viver de passado. Agora é enxugar as lágrimas, continuar a servir e esperar que continuem a lhe chamar de – ENGENHO - ah, isso ele exige!




VELHO ENGENHO



Casa de Festas e Eventos


                                                          
 A velha mangueira, a gangorra e a sede do Sítio Barra do Sapé, de Filhinha Magalhães e filhos.

                          Dizem que virou “casa de festa”. Protesta enfurecido. Chama-se ENGENHO até a morte e pronto! Quem tiver dúvida que procure a sua certidão de nascimento! A quem pertence??? Responde sem tropeçar: a todos que o amaram e que fizeram parte da sua história...

sexta-feira, 4 de agosto de 2017




 VIBRA CORAÇÃO

Amélia Luz


Alegria! Alegria!
Vibra o coração do menino
Jogando na roda o pião de madeira.
Enrola a cordinha com jeito,
Entorta a boca, morde a língua,
Dá o impulso de mestre
E deixa o pião girar com carinho...
Ah! Se eu fosse um menino
Com a alma do Severino
Deixava o meu pião dorminhoco
Girando na palma da mão.
Pião campeão! Pião campeão!
Severino campeão!
Gritava a molecada da escola.
Pés descalços, camisas de algodão,
Livros velhos no fundo da sacola!
Pião rodando no chão de terra
E, orgulhoso dentro do peito,
Um menino pobre se sentia feliz.
Vibra, vibra coração!!!


Lembranças da minha vida de professora na Zona Rural.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Minha mãe: 

Luíza (Nideck) Raposo da Luz


Depoimento de Amélia Luz

Uma História de Vida

                                                               Minha filha: Wilmary Luz Magalhães de Soza


Algumas premiações literárias
Meu filho perdido: Fábio Luz.







                           O salto:  Projetos literários


A  CUIDADORA  DE  VERSOS 
Uma história de vida- depoimento.

Amélia Luz

                          A vida me trouxe grandes surpresas. Sempre compromissada com o lado direito dela construí família e bem cedo comecei a trabalhar. Os filhos virem e com ternura maternal procurei cumprir a doce missão de ser mãe.
                          Com o tempo aprendi que aquilo que mais amamos pode ser alvo de um grande sofrimento. Meu filho aos catorze anos, vítima de um prognóstico de nome estranho, Hebefrenia, bem depois Esquizofrenia: estranho vocabulário para mim até então. O dicionário mostrou-me o significado das novas palavras, o sofrimento veio tirar as vendas dos meus olhos cegos e mostrou-me os porões escuros de um adolescente enlouquecendo. Armei-me de todos os meios para tentar ajudá-lo, mesmo sendo uma simples professora trabalhando na zona rural de um município distante dos grandes centros.
                         Ele precisaria fazer Psicanálise que me deixou preocupada, uma vez que naquele tempo somente as grandes cidades poderiam oferecer profissionais capacitados para tratá-lo, além do meu bolso pequenino de uma professora do Estado do Rio de Janeiro. Não poderia cruzar os braços, lancei-me à sorte. Semanalmente viajava com ele para o Rio de Janeiro em busca de melhoras e terapias que pudessem ajuda-lo nos problemas de exacerbação de comportamento, com delírios, fantasias, agressividade, fugas. Um quadro muito triste que me trazia aflição diante do desconhecido. Logo ele, o primeiro aluno da classe sempre tão disciplinado, estudioso, inteligente e comportado.
                         Os conflitos em casa eram constantes entre pai e filho. O pai na sua falta de conhecimentos pensava que com surras tudo seria bem resolvido. O tempo, sim o tempo que veio mostrar que a cada dia eu teria que me revestir de muita força para ajudar aquele filho. Continuei batalhando, aprendi a lidar com a situação ajudada por uma excelente médica, a Dra. Borges que a cada encontro mostrava-me o quanto eu era importante na minha família e que se eu me perdesse todos se perderiam e afundariam comigo.
                      Aquela médica, vinda da Bahia para o Rio de Janeiro foi construindo a mãe e o filho na dependência do tratamento. Eu me alimentava das sobras do divã e esfaimada ia me fartando do pouco ou do muito que vinha no meu prato quase sempre vazio de boas informações.
                    Não só o meu filho como também a minha mãe que morava conosco sofria do Mal de Pânico que mais tarde passou ao Mal de Alzheimer e a perda da memória precisando da minha tutela permanente por onze anos. Nessa altura a médica que no início me apoiara havia se mudado para outra capital mais distante e eu havia trocado de médico estando agora aos cuidados de outro, O Dr. Malveze, um anjo de Deus na minha vida que pode dar, com competência e dedicação, continuidade ao tratamento daquele filho e agora daquela mãe/avó na Psiquiatria levada a sério.
                       Ele foi tratado dos catorze aos quarenta e quatro anos quando, por septicemia faleceu em um dia de desaviso. Sepultei aquele filho com profunda dor e sempre carregando comigo o pesado fardo de ter sido a cuidadora única daqueles dois  enfermos queridos, filho e mãe, perdidos nos meandros da doença mental, tendo eu ainda uma pesada jornada de trabalho: SEE/RJ e SEE/MG.
                             As letras, os livros, a poesia, o conto de cada dia me acompanhavam. Sempre procurava extravasar os meus sentimentos de dor nas páginas de um livro estudando sozinha, escrevendo e buscando a leveza do sonho na arte de escrever, na palavra que edifica. Superar era preciso! Era preciso ver o arco-íris mesmo em dias frios e nublados. Era preciso sorrir com todos os dentes, mesmo com lágrimas nos olhos. Era preciso estar à frente daquela família que agora tinha uma menininha crescendo e descobrindo o mundo, a minha filha.
                              Trabalhava para equilibrar com dificuldades as contas da família com muita sabedoria econômica, fazendo sempre a arte de “multiplicar os pães”. Era professora de Língua Portuguesa. Ensinava os meus meninos a pensar e a produzir textos. Voava com eles em um encantado tapete mágico esquecendo as dores da vida e trabalhando os meus projetos com a motivação de levá-los à leitura, ao mundo dos livros, às bibliotecas, à cidadania pelo saber. Foi este o meu pilar. Construir mundos na sala de aula. Partilhar o gosto pela literatura crescer e provocar o crescimento das muitas turmas que pegava de fevereiro a dezembro.
                          Meu filho morto, sepultado, minha filha crescendo, estudando, sempre independente e procurando seus caminhos com os seus próprios pés. Minha mãe envelhecendo, a doença progredindo e os anos de mocidade galopando dedicados à causa de ser a CUIDADORA deles com a ajuda dos médicos amigos que souberam me orientar, no seu exercício profissional honesto, a como sobreviver lidando nesse contexto familiar conflituoso..
                       O salto, ainda mais um salto para pular o obstáculo maior da idade que avançava, do tempo que escasseava nos calendários que ainda estavam por vir. Lia, estudava, fundei para mim a minha “oficina de versos” e diariamente passei a cuidar dos versos. Ao mesmo tempo em que temperava as saudades do filho falecido e que via a minha menininha se emancipar e cuidava da minha mãe como um bebê de noventa anos mergulhava na minha “oficina de versos” e brincava com as letras de forma agradável e lúdica dando rasteiras no sofrimento. Viva, eu estava viva! Isso me bastava. “Até aqui me trouxe a mão do Senhor”, pensava e me encorajava na fé.
                      Aos noventa e seis anos despedi-me para sempre da minha mãe. Agora, sem eles, o que fazer? Como prosseguir? Da cuidadora de pacientes mentais nasce a cuidadora de versos que passa a semear letras nas estrelas, que passa a montar nos raios de sol, que passa a enxergar o invisível a cada emoção sentida, a viajar nas trilhas dos eventos literários com premiações diversas e constantes.
                        Saí dos miligramas das tarjas pretas para lidar com o universo das palavras que me fascinaram sempre, desde a infância. Participo hoje de muitas associações e academias literárias. Meus poemas já foram publicados em português, espanhol, francês, italiano e grego, tendo hoje inúmeras antologias publicadas em vários estados do Brasil e no exterior.
                         Quando interpreto os meus poemas em eventos culturais lembro-me de que na mágica da vida passei a ser “cuidadora de versos” cultivando jardins colhendo flores, mesmo em dias de temporal. Saio hoje aposentada para fazer oficinas nas escolas somente pelo prazer de dividir o gosto pelos versos, pela leitura QUE CONSTRÓI desarmando o mundo pela emoção da palavra.

                          A Medicina honesta, competente, dos profissionais que se tornaram grandes amigos foi, sem dúvida, a tábua de salvação que não me deixou afundar naquele naufrágio aliada à fé que me edificava nos caminhos de Deus. Venci, superei, transpus a violência das ondas daquele mar bravio e me mascaro de saltimbanco saindo por aí despreocupada fincando as minhas novas estacas na arte da palavra como fonte de vida. Viva a vida!!!